Sete Faces
Sete Faces


Segunda-feira, Setembro 29, 2008


Censuradas
10.11.05 9:03 AM

"O velho sem conselhos
De joelhos
De partida
Carrega com certeza
Todo o peso
Da sua vida
Então eu lhe pergunto pelo amor
A vida inteira, diz que se guardou
Do carnaval, da brincadeira
Que ele não brincou
"Me diga agora
O que é que eu digo ao povo
O que é que tem de novo
Pra deixar
Nada
Só a caminhada
Longa, pra nenhum lugar"



Esse ano está no fim, enfim. Não foi o melhor. Tinha tanta perspectiva. Tanta tanta. Eu falhei. Falhei com 2005. Esse é o ano mais triste de todos. Porque os outros, um bocado dos outros anos, eram os que poderiam ter sido, os que quase foram, os anos melancólicos, quase Bandeira. Os anos que não vingaram mas viveram de certa forma numa alegria incontida, numa adolescencia eterna. Numa espera.

Esse ano não foi nada disso. Esse ano eu errei. Eu falhei. Eu decepcionei. Esse ano eu enfiei o pé na jaca mesmo. Eu fui burra. Eu acreditei. Eu me iludi. Eu caí. Eu queimei.

Esse ano ninguém morreu mas eu perdi tanta gente. Eu me perdi. Esse ano as coisas não deram certo. A grande maioria das coisas não deu certo esse ano.

Mas a verdade é que não estou aqui pra dizer das coisas felizes que aconteceram. As coisas felizes estão guardadas aqui comigo tão preciosas como lágrimas.

As coisas tristes é que estou expondo. Tudo que nasceu respirando e com o coração batendo, mas sem chance nenhuma de vida. Como os bebês prematuros naquele plantão longinguo da G.O.

Antes eu queria voltar no tempo e começar de novo, fazer direito dessa vez. Antes eu achava que podia consertar tudo. Que tudo ia dar certo. Mas estou velha agora. Agora eu sei. Não adianta começar tudo de novo. Não adianta.

Finalmente aprendi com os erros. Finalmente. Demorou tanto. 21 anos. 21 anos e só agora fui entender. E bem capaz que não estou entendendo direito.

Mas vocês sabem o que estou falando, não é? Talvez eu não esteja sendo clara.

Estou falando de magoar pessoas queridas achando que não tem jeito, estou falando de ficar em silencio nas horas erradas, estou dizendo de falar demais o que não se deve. Estou falando de dar conselhos sem lógica. De negligenciar. De lavar as mãos. Estou falando sobre covardia em horas improprias. Estou falando de acreditar nas mentiras erradas. Estou falando de acreditar que é diferente dessa vez e nunca é. Estou falando de achar que vai dar certo e não mudar quando se deve. Estou falando de falhar. De falhar de novo e de novo. De fazer escolhar erradas.

Estou falando de ser humano. Humanissimo. Esse ano. Esse longuissimo 2005 muitas coisas deram certo, mas nenhuma por escolha minha, por ajuda minha, por minha causa.

Esse ano eu só errei. Mas aprendi tanto.

Aprendi que se levanta, apesar de doer pra burro. E que se continua amando, apesar de doer também.

Aprendi que eu ainda sou como era aos 13. Eu ainda amo todo mundo. E sinto falta de tudo. Sinto falta de tudo. E ainda não me recupero.

Eu sou a mesma, mas com conhecimento.

Ano que vem vai ser diferente. Só estou esperando a greve passar. A fumaça parar de deixar meus olhos vermelhos. Estou indo nessa maré tranquila tentando me perdoar, tentando me redimir da culpa.

Esse ano não deu certo mas ninguém acerta sempre. Ano que vem vai ser bem melhor.

"O velho de partida
Deixa a vida
Sem saudades
Sem dívida, sem saldo
Sem rival
Ou amizade
Então eu lhe pergunto pelo amor
Ele me diz que sempre se escondeu
Não se comprometeu
Nem nunca se entregou
Me diga agora
O que é que eu digo ao povo
O que é que tem de novo
Pra deixar
Nada
Eu vejo a triste estrada
Onde um dia eu vou parar"


Mas o motivo desse post longuissimo é mais pra dizer que quase nada mudou. Errei tanto e ainda vivo do mesmissimo jeito. Quero as mesmas coisas, converso no mesmo tom, com meus mesmos amigos, minha familia, meu namorado, meus bichinhos de estimação.

Esse post é pra dizer que quase ninguem vai ver o que mudou. Quase ninguém vai notar. Estou falando de algo sutilissimo, que eu mesma demorei tanto pra notar que quase passou sem ser devidamente catalogado.

Mas aqui está, percebi a tempo pra falar para quem se interessar o suficiente pra ter chegado até aqui.

Não sou mais criança, envelheci.

E é isso.


"O velho vai-se agora
Vai-se embora
Sem bagagem
Não sabe pra que veio
Foi passeio
Foi passagem
Então eu lhe pergunto pelo amor
Ele me é franco
Mostra um verso manco
De um caderno em branco
Que já se fechou
Me diga agora
O que é que eu digo ao povo
O que é que tem de novo
Pra deixar
Não
Foi tudo escrito em vão
Eu lhe peço perdão
Mas não vou lastimar"
Chico Buarque de Holanda, O velho

E foi Buaque (sempre) que disse melhor. O que falo ao povo? Que nada há de novo. Que foi tudo escrito em vão.

Peço perdão a todos, mas não vou lastimar.

Não vou, dessa vez não vou, lastimar.

Mas perdoem-me mesmo assim.

Maria Anita8:36 PM Comentários: |
Terça-feira, Setembro 23, 2008


"The common fate of all things rare "
Edmund Waller


Nesta vida que venho vivendo há pouco mais de vinte e quatro anos aprendi algumas coisas. Muito poucas, diga-se de passagem, são dignas de nota.

Aprendi a andar, usar meu polegar opositor e dar cambalhota. Todos grandes feitos disfarçados, já que a grande maioria das pessoas faz o mesmo sem grande esforço aparente.

O importante na vida são as coisas raras.

Há quem diga que o que vale são as pequenas coisas, o dia a dia, que a felicidade tá no feijão com arroz.

Mas venho discordando dessa verdade nesses últimos tempos.

O importante mesmo são as coisas raras. O comum, o comum eu tenho diariamente sem muito esforço.

Do comum, quase todo mundo é capaz.

O bom da vida é o extraordinario.

E é por ele que temos esperado todos esses anos. Todos esses dias de todos esses anos.

E quando encontramos, que alegria que é. E nossa tendência óbvia é nos mantermos com ele.

E o próximo passo é torna-lo comum.

Esse é o destino da maioria das coisas raras.

Por isso temos que tomar cuidado com elas. Temos que conviver com o raro sem muda-lo demais.

Porque sempre existe o risco do que era raro se tornar apenas mais um, e aí?

Então, se tem uma coisa que eu aprendi, e me orgulho, é de tratar tudo que é raro como se fosse raro.

Todos os dias.

E nunca me acostumar com a beleza do que é único. Mesmo que eu veja isso todo dia, eu sempre tento me lembrar:

It's one of a kind.

Seja gentil e guarde com carinho.


Maria Anita11:18 PM Comentários: |

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